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ISS para Médicos: Como funciona a retenção e o imposto variável por cidade

 

A tributação na área da saúde é um dos temas mais complexos do sistema fiscal brasileiro, especialmente quando tratamos do Imposto Sobre Serviços (ISS). Para médicos, clínicas e hospitais, a dúvida sobre onde pagar o imposto e como calcular a alíquota correta é uma constante que gera insegurança jurídica e perdas financeiras. A legislação municipal, combinada com as regras federais, cria um cenário de “guerra fiscal” que afeta diretamente o faturamento do profissional de saúde.

Muitos médicos que atuam como Pessoa Jurídica (PJ) enfrentam a surpresa de receberem seus honorários com descontos inesperados. Isso ocorre devido à retenção de ISS na fonte, uma prática comum que varia drasticamente dependendo da cidade onde o serviço é prestado e da cidade onde a empresa do médico está sediada. Entender essa dinâmica é fundamental para evitar a bitributação (pagar o mesmo imposto duas vezes) e garantir a regularidade fiscal.

Neste artigo, vamos aprofundar o funcionamento do ISS variável, as regras de retenção segundo a Lei Complementar 116/2003 e como as decisões recentes do STF impactam a prestação de serviços médicos em diferentes municípios. Se você é médico, gestor de clínica ou investidor na área da saúde, este guia técnico foi elaborado para esclarecer os pontos críticos da sua operação tributária.

O que é o ISS e a Regra da Territorialidade

O Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN ou apenas ISS) é um tributo de competência municipal. A regra geral, estabelecida pela Lei Complementar nº 116/2003, determina que o imposto é devido no local do estabelecimento prestador (a cidade onde sua empresa está aberta). No entanto, a lei traz uma série de exceções que geram confusão, especialmente no setor de saúde, onde o serviço é executado fisicamente em hospitais ou clínicas de terceiros.

A grande questão surge quando um médico tem sua empresa (PJ) sediada na cidade A (ex: Lauro de Freitas), mas presta serviços em um hospital na cidade B (ex: Salvador). A prefeitura da cidade B, querendo arrecadar, muitas vezes exige que o hospital retenha o ISS do médico, alegando que o serviço foi prestado em seu território. Se o médico não tiver a devida orientação contábil, ele acabará pagando o imposto na cidade B (via retenção) e na cidade A (via guia mensal do Simples ou Lucro Presumido).

Para complicar, a definição de “estabelecimento prestador” não é apenas o endereço no contrato social. Para o Fisco, se você tem uma estrutura, pessoal ou habitualidade em outro município, pode-se configurar uma unidade econômica lá, atraindo a cobrança do imposto para o local da execução. É vital ter um planejamento tributário que blinde a empresa contra essas interpretações extensivas das prefeituras.

Diferença entre ISS Fixo (Uniprofissional) e ISS Variável

Uma das maiores vantagens para sociedades médicas é o enquadramento como Sociedade Uniprofissional (SUP). Nesse modelo, o ISS não é calculado sobre o faturamento total da nota fiscal, mas sim um valor fixo por sócio, independentemente do quanto a empresa fature. Porém, nem toda empresa médica pode optar por esse benefício; é necessário cumprir requisitos rigorosos, como não ter caráter empresarial, não ter sócios leigos e ter responsabilidade pessoal ilimitada.

Já o ISS Variável é a regra para a maioria das empresas enquadradas no Simples Nacional (Anexo III ou V) e no Lucro Presumido que não são uniprofissionais. Aqui, a alíquota varia de 2% a 5% sobre o valor bruto da nota fiscal, dependendo da legislação de cada município e da faixa de faturamento da empresa.

Confira abaixo as principais diferenças entre os regimes:

CaracterísticaISS Fixo (Sociedade Uniprofissional)ISS Variável (Regra Geral/Simples/Presumido)
Base de CálculoNúmero de profissionais habilitados (sócios).Faturamento bruto mensal (valor das Notas Fiscais).
Custo MensalValor fixo (ex: R$ 300,00 a R$ 1.500,00 por sócio/ano ou trimestral).Percentual de 2% a 5% sobre cada nota emitida.
Vantagem PrincipalCusto reduzido para quem tem alto faturamento.Simplicidade na apuração (já vem na guia DAS ou ISS próprio).
RiscoDesenquadramento pela prefeitura se houver caráter empresarial.Impacto financeiro alto em faturamentos elevados.
Retenção na FonteGeralmente não sofre retenção (mediante cadastro).Sujeito a retenção se prestar serviço em outro município.

O Problema da Retenção na Fonte e o CPOM

A retenção de ISS ocorre quando o tomador do serviço (o hospital ou a clínica contratante) desconta o valor do imposto do pagamento do médico e recolhe diretamente à prefeitura local. Isso acontece obrigatoriamente quando a lei municipal exige que prestadores de fora do município se cadastrem na prefeitura local para provar que existem de fato em sua cidade de origem. Esse cadastro é frequentemente chamado de CPOM (Cadastro de Prestadores de Outros Municípios) ou CENE.

Embora o Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento do Recurso Extraordinário 1.167.509 (Tema 1020), tenha declarado inconstitucional a obrigatoriedade do CPOM para evitar a retenção automática (caso emblemático de São Paulo), muitas prefeituras ainda mantêm mecanismos burocráticos similares. Na prática, se o hospital não sentir segurança na documentação da sua PJ médica, ele fará a retenção para evitar ser autuado como “responsável solidário”.

Isso significa que o médico receberá o valor líquido menor. Se a contabilidade desse médico não for avisada ou não souber tratar essa retenção, o imposto será pago novamente na apuração mensal da empresa. O resultado é um prejuízo direto de 2% a 5% sobre o faturamento, o que, ao longo de um ano, representa uma soma considerável de dinheiro desperdiçado por falha na gestão tributária.

Exemplos Práticos: Médicos em Trânsito

Vamos analisar cenários comuns no dia a dia da classe médica para ilustrar como a falta de gestão pode custar caro. O médico precisa estar atento ao contrato de prestação de serviços e ao local onde a nota fiscal é emitida.

  • Cenário 1: Médico de Salvador prestando serviço em Salvador

    Se a empresa do médico é de Salvador e ele atende em hospitais da capital baiana, a regra é simples. O imposto é devido em Salvador. Se ele for Simples Nacional, paga no DAS. Se for Lucro Presumido, paga na guia própria. Raramente haverá retenção, a menos que haja alguma irregularidade no cadastro municipal.

  • Cenário 2: Empresa em Município Vizinho (ex: Lauro de Freitas) prestando em Capital (ex: Salvador)

    Muitos médicos abrem a empresa em cidades da região metropolitana por incentivos fiscais (alíquotas menores). Ao prestar serviço na capital, o hospital pode exigir a retenção do ISS a favor da capital, alegando que o serviço ocorreu ali. Sem o devido suporte jurídico e contábil para contestar ou compensar, o médico paga na origem e no destino.

  • Cenário 3: Plantões em Múltiplas Cidades

    Um anestesista que cobre plantões em três cidades diferentes pode ter que lidar com três legislações de ISS distintas. Se a empresa dele não tiver a estrutura correta de emissão de notas, discriminando os locais e segregando as receitas, a tributação vira um caos, elevando o risco de malha fina municipal e federal.

Cuidados Essenciais e Planejamento Tributário

Para mitigar esses riscos, o primeiro passo é uma análise contratual rigorosa antes de iniciar a prestação de serviços. O contrato entre a PJ do médico e o hospital deve prever claramente a responsabilidade tributária. Além disso, a nota fiscal deve ser emitida com os códigos de serviço corretos e a indicação precisa do local da prestação, conforme a Lei Complementar 116/03.

Outro ponto de atenção é a segregação das receitas no Simples Nacional. Se houve retenção de ISS em outro município, esse valor deve ser informado na declaração mensal (PGDAS-D) para que o sistema abata a parcela do ISS da guia única. Muitos contadores generalistas esquecem de marcar essa opção, fazendo o cliente pagar o ISS dentro do DAS mesmo já tendo sofrido a retenção na nota.

Por fim, manter a regularidade do alvará e do cadastro na prefeitura sede da empresa é a melhor defesa contra a alegação de “empresa de fachada”. Prefeituras fiscalizam endereços virtuais e coworkings para verificar se há estrutura mínima. A documentação robusta é a única forma de garantir que o imposto seja pago apenas uma vez e no local correto.

FAQ – Perguntas Frequentes sobre ISS para Médicos

1. O hospital reteve meu ISS. Posso descontar esse valor do meu imposto mensal?

Sim, na maioria dos casos. Se você é optante pelo Simples Nacional, seu contador deve informar no PGDAS que o ISS foi retido, para que o sistema não cobre essa parcela novamente. No Lucro Presumido, o valor retido também é compensado, evitando a bitributação.

2. Vale a pena ser Sociedade Uniprofissional (ISS Fixo)?

Financeiramente, quase sempre vale a pena para faturamentos médios e altos. Porém, é preciso ter cuidado jurídico: sociedades uniprofissionais não podem ter características empresariais (como estrutura complexa ou sócios não médicos). O risco de desenquadramento retroativo com multas pesadas existe.

3. O que acontece se eu não tiver cadastro na cidade onde presto serviço?

Dependendo da legislação local, o tomador (hospital) pode ser obrigado a reter o ISS máximo (5%) do seu pagamento. Mesmo com decisões do STF favoráveis aos contribuintes, a burocracia local muitas vezes impõe a retenção até que se prove o contrário.

4. Sou plantonista, qual endereço devo colocar na nota fiscal?

O endereço do prestador é o da sua empresa (sede). O local da prestação do serviço deve ser preenchido conforme a realidade (o endereço do hospital). O preenchimento incorreto desses campos é a causa número um de retenções indevidas.

Conclusão

A gestão do ISS para médicos vai muito além de apenas emitir uma nota fiscal. Envolve o entendimento profundo da legislação municipal, das regras de retenção e da correta parametrização contábil para evitar o pagamento duplo de impostos. Em um cenário onde as margens de lucro são pressionadas e a fiscalização é cada vez mais digital e cruzada, contar com uma assessoria especializada não é luxo, mas uma necessidade de sobrevivência empresarial.

O dinheiro que você perde pagando impostos indevidos ou retidos sem compensação é lucro líquido que sai do seu bolso. A complexidade do sistema tributário brasileiro exige vigilância constante e um parceiro que entenda as nuances da tributação médica.

A Agitt Contabilidade está à sua disposição com uma equipe de alto nível, pronta para ser sua parceira estratégica nesta jornada. Nós estamos aqui para ajudar você a decidir qual o melhor caminho a trilhar, otimizando sua carga tributária e garantindo sua total segurança jurídica.

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